Coimbra: Chévere abre Mostra Galiza com espectáculo contra os preconceitos

A abertura oficial da Mostra, que contará com a presença de representantes dos governos da Galiza e de Portugal e da Câmara Municipal de Coimbra, coincide com a inauguração da exposição “Isaac Díaz Pardo: deseño, memoria e compromiso”, organizada pela Facultade de Deseño da Universidade de Vigo. A exposição é uma justa e necessária homenagem ao legado de Isaac Díaz Pardo, figura central da cultura galega do século XX e que já na Mostra de Teatro Galego, em 2023, fora lembrado pela sua participação no projecto “Castelao e a sua época”. Ao espólio da exposição original juntam-se nesta exibição em Coimbra algumas peças que integram o acervo do Centro de Documentação e Informação da Cena Lusófona, como ilustrações de Isaac Díaz Pardo em livros de teatro e o número zero do jornal “Galicia”, publicado em 2008 pela Rede de Acción Socio-Cultural Arredemo. Logo após as intervenções de abertura, que terão início às 17h30, terá lugar uma visita guiada pela comissária da exposição, Silvia García, professora da Universidade de Vigo. A entrada é gratuita.
Galeria
Helen Keller, a muller marabilla?
Com um título em forma de pergunta, o espectáculo escolhido para abrir a Mostra Galiza tem início logo após a sessão inaugural, pelas 19h00, no Teatro da Cerca de São Bernardo. Trata-se de uma das mais recentes produções do Chévere, grupo com 38 anos de actividade, que se auto-define como “companhia de agitação teatral” e que em 2014 foi distinguido com o Prémio Nacional de Teatro da Espanha “pelo seu compromisso social e cultural e pela sua coerente trajectória de criação colectiva, transgressão de géneros e conexão crítica com a realidade”. Fundador e dinamizador da famosa Sala NASA, em Santiago de Compostela, que funcionou entre 1992 e 2011, e do laboratório de criação cénica A Berberecheira (2016-2020), é reconhecido ainda pelo apoio que de diferentes formas tem prestado a outros/as artistas e colectivos galegos.Com dramaturgia e encenação de Xron a partir de uma ideia original de Chusa Pérez de Vallejo (actriz que integra o elenco), “Helen Keller: a muller marabilla?” debruça-se sobre a vida de Helen Keller (1880-1968), cidadã norte-americana que se tornou famosa por ser a primeira pessoa surda e cega a obter um diploma universitário. Surpreendido pela existência de uma campanha nas redes sociais que afirma que Helen Keller é uma invenção e que inclui uma petição online para apagá-la da história, o Grupo Chévere lança perguntas: “Porque se oculta parte da sua vida? A quem interessa fazê-lo? Porque querem apagá-la? Porque é uma mulher, surda e cega? Porque não se aceita que uma das pessoas mais famosas do século XX nos Estados Unidos seja comunista? Porque uma mulher com deficiência não pode converter-se numa líder anti-capitalista?”. Acompanhando os principais momentos da biografia de Helen Keller, o espectáculo mostra facetas menos conhecidas da sua vida, incluindo a militância partidária e o activismo político que nunca deixou de exercer. Lembra, por exemplo, as posições de Helen Keller sobre as desigualdades sociais, os direitos dos trabalhadores, o papel das mulheres, a emancipação popular, a guerra, o capitalismo. Com um formato pouco comum, próximo do que normalmente se designa de teatro documental mas que discute essa própria definição, este é também um espectáculo “que questiona a incomunicação entre pessoas ouvintes e pessoas surdas, explorando as possibilidades de partilhar uma conversa aberta no palco”. É um espectáculo bilingue, que junta a língua falada em galego e a língua gestual espanhola, desafiando os/as espectadores/as ouvintes a experimentarem a estranheza de conviverem com uma língua que não entendem e a adaptarem-se a um ritmo de espectáculo a que não estão habituados/as (e a conviverem com o silêncio). Elementos indissociáveis nesta estimulante proposta do Chévere, o argumento e a forma do espectáculo oferecem ao público a possibilidade de se confrontar com distintos preconceitos e de reflectir sobre a forma como as sociedades contemporâneas convivem com a diferença face à norma.Para além da interpretação em língua gestual feita pelas próprias actrizes, a apresentação do espectáculo em Coimbra contará com audio-descrição (em galego), tornando-se assim também acessível a pessoas cegas. Os bilhetes custam entre 5 e 10 euros e podem ser comprados na ticketline ou reservados pelos contactos habituais do Teatro da Cerca de São Bernardo: 239 718 238 / 966 302 488 / bilheteira@aescoladanoite.pt.
Mostra Galiza Coimbra até 1 de Novembro
Realizada na sequência da Mostra de Teatro Galego que teve lugar em 2023, a Mostra Galiza assume-se como um projecto bienal que visa aproximar as comunidades artísticas e os públicos da Galiza, de Portugal e dos restantes países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. O novo formato reforça a abertura a outras artes e passa a incluir um país lusófono convidado em cada edição, contribuindo para integrar a Galiza nos circuitos de intercâmbio no espaço da CPLP. Desta vez, é o Brasil.O programa estende-se até 1 de Novembro, acontece em vários espaços da cidade e inclui nove espectáculos, duas oficinas, uma exposição, uma sessão de poesia, a apresentação de dois livros, uma masterclass, uma aula aberta, e uma feira do livro teatral. Entre os/as artistas convidados/as estão, para além do Chévere, A Panadaría, Paula Carballeira, Antonio Nóbrega e Rosane Almeida, Santi Araújo e Samuel Louro, Centro Dramático Galego, Elefante Elegante e Caramuxo Teatro. Reunidos em residência artística a convite da Mostra, Uxía (Galiza), Antonio Nóbrega e Ceumar (Brasil) e Luís Pedro Madeira, Manuel Rocha e Quiné Teles (Portugal) construirão o concerto “Terreiro Mestiço”, uma grande festa musical que partilharão com o público a 31 de Outubro, pelas 21h30, no Grande Auditório do Convento São Francisco.A Cena Lusófona e A Escola da Noite são estruturas financiadas pela Câmara Municipal de Coimbra e pela Direcção-Geral das Artes, contando ainda com o apoio da Xunta de Galicia e do programa Ibercena para esta iniciativa. A programação detalhada da Mostra pode ser consultada no blogue d'A Escola da Noite, em https://weblog.aescoladanoite.pt/mostra-galiza-coimbra-2025/



