Lançamento da obra "Pareciam Homens ao Longe e Outras Peças Curtas" de Gil Vicente Tavares

Dando continuidade ao projecto editorial iniciado em 2024, A Escola da Noite apresenta ao público o número 6 da colecção de dramaturgia “Os nossos autores”, que pretende reunir as peças de teatro levadas à cena pelo Grupo de Teatro de Coimbra que não estão ainda editadas em Portugal. Sensivelmente a meio da temporada da sua mais recente criação – o espectáculo “Pareciam homens ao longe”, de Gil Vicente Tavares, com encenação do próprio dramaturgo –, a companhia publica em livro as três peças agora trabalhadas (“Praça de guerra”, “Os javalis” e “Os Amantes II”) e junta-lhe outras três peças curtas do autor (“Canto seco”, “Acto único” e “Claro Escuro”), oferecendo assim uma panorâmica mais alargada da vasta obra do artista brasileiro.
Com linguagens diversas e escritas numa fase inicial do percurso do escritor, na viragem do século XX para o século XXI, os seis textos não só mantêm hoje toda a actualidade como ganham novas possibilidades de leitura, na forma como partilham interrogações e inquietações sobre a condição humana e a vida em sociedade. Continuamos com “estilhaços de guerra nos destroçando a alma”, “com javalis batendo em nossa porta, nossa mente e nossas ideias” e com “homens tolos idiotizados por telas, violentando mulheres e mutilando as belezas do mundo”, afirma Gil Vicente Tavares sobre as peças que dirigiu no espectáculo recém-estreado. Nas restantes obras que integram o livro, o dramaturgo destaca as “sombras sobre a infância” lançadas pelas personagens. Em “Canto seco” (1998), sob o “sol castigante” do Sertão, “um casal de irmãos vê seu futuro secar em meio à solidão de um agreste sem vida”. Em “Acto único”, a primeira peça escrita pelo dramaturgo, em 1997, “as sombras da inocência roubada são fantasiadas no lirismo cruel de duas gerações, que se encontram para contar sobre sua infância violada”. Finalmente, “Claro Escuro” (2001) debruça-se sobre o tema da violência contra menores, “vítimas de uma sociedade injusta e corrompida, protagonizada pelos que se dizem ao lado da lei, mas se julgam acima dela”.
Por opção do autor, todas as peças estão adaptadas para Português europeu, de forma a facilitar a sua compreensão pelo público e eventuais montagens em Portugal. Feitas em parceria com o próprio dramaturgo, as adaptações estiveram a cargo de Ana Teresa Santos e Igor Lebreaud, elementos do elenco permanente d'A Escola da Noite. A excepção é a peça “Canto Seco”, cuja linguagem está fortemente marcada por regionalismos característicos do Sertão, a maior sub-região do Nordeste brasileiro. Qualquer tentativa de adaptação iria desvirtuar a obra.
A apresentação do livro em Coimbra acontece no próximo sábado, dia 23 de Maio, pelas 18h00, na Livraria do Teatro da Cerca de São Bernardo. Tem entrada livre e contará com a presença do autor, sendo por isso também uma oportunidade para o público conversar com o dramaturgo sobre o espectáculo que dirigiu e sobre a sua obra, antes do seu regresso ao Brasil.
A temporada do espectáculo prolonga-se até 31 de Maio, com sessões às quintas-feiras (19h00), sextas e sábados (21h30) e no domingo, dia 31, às 16h00. Os bilhetes podem ser adquiridos na ticketline ou reservados pelos contactos habituais do TCSB: 239 718 238 / 966 302 488 / bilheteira@aescoladanoite.pt.
Galeria
Gil Vicente Tavares
Gil Vicente Tavares nasceu em Salvador da Bahia, em 1977. Encenador, dramaturgo, compositor e professor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cénicas, formou-se em direcção teatral com a peça “Quartett”, de Heiner Müller (Prémio Copene de revelação) e é doutorado em artes cénicas, com a tese “A herança do Absurdo”, publicada em 2015. Em 2006, criou o grupo Teatro NU. Com mais de dez espectáculos realizados, o grupo tem acumulado prémios e participado em alguns dos principais festivais de teatro do país. Destacam-se: “Sargento Getúlio” (2011), Prémio Braskem de melhor espectáculo e melhor actor; “Quarteto” (novamente Müller, 2014), Prémio Cenym de melhor grupo de teatro, melhor qualidade artística, melhor iluminação, melhor maquilhagem e melhor cartaz; “SADE” (2015), Prémio Fapex de Teatro, Prémio Braskem de melhor texto e Prémio Cenym de melhor elenco; “Os Pássaros de Copacabana” (2017), Prémio Braskem de melhor encenação e melhor actor e Prémio Cenym de melhor monólogo nacional; “Um Vânia”, de Tchékhov (2017), Prémio Braskem de melhor espectáculo, melhor encenação e melhor actor; “As Tentações de Padre Cícero” (2018), Prémio Braskem de melhor texto e melhor direcção musical. Em 2019, dirigiu a sua primeira ópera, “Lídia de Oxum”, de Lindenbergue de Cardoso e Ildásio Tavares, com a participação da Orquestra Sinfónica da Bahia; estes dois últimos espectáculos com cenografia de Márcio Medina. Destacam-se ainda seu trabalho como co-argumentista do filme “Cidade Baixa” (2005), de Sérgio Machado, e a encenação do espectáculo “A visita da velha senhora” (2024), de Dürrenmatt, pela companhia de Teatro da UFBA, com a actriz Ítala Nandi. O espectáculo foi finalista do Prémio Shell na categoria destaque nacional. O seu texto mais recente, o infantil “Maria vai com as outras”, estreou em Março de 2026. É colunista do Jornal Correio, tendo publicado uma colectânea das suas crónicas com o título “Os joelhos de Schiele”. Com diversas canções gravadas, foi vencedor do III Festival Educadora FM por sua composição “A viagem de Firmino”.
Colecção “Os nossos autores”
Agora com seis títulos publicados, a colecção de dramaturgia “Os nossos autores” visa tornar acessíveis ao público os textos inéditos escritos em Português encenados pel'A Escola da Noite e as traduções feitas propositadamente para espectáculos da companhia ao longo do seu percurso. Antes de “Pareciam homens ao longe & outras peças curtas”, foram publicados “Aqui, onde acaba a estrada”, de Igor Lebreaud; “Teatro Decomposto & Café Bonheur”, de Matéi Visniec (com tradução de Ana Teresa Santos); “Trilogia de Alice”, de Tom Murphy (com tradução de Paulo Marques Dias); “O grande incêndio” de Roland Schimmelpfennig (com tradução de António Sousa Ribeiro); e “A Canoa”, de Cándido Pazó (com tradução de Cándido Pazó e Sofia Lobo).

